Uma das ‘minhas’ netas, a mais nova, Marina, quando vem à nossa casa gosta de brincar com um pote de vidro com tampa de Chapéu de Bruxa – que foi presente de minha amiga Andréa Bianchi, há muitos anos atrás -, que tem dentro papéis coloridos enroladinhos, com mensagens de sorte. Muitos deles já foram pro lixo, rasgados e mordidos, vocês podem imaginar. Mas o mais gostoso é ouví-la repetir ‘Bruxa’. A palavra tem uma sonoridade engraçada na voz infantil. E alegre. Isso transforma o ‘personagem’, que teoricamente é malvado, em algo totalmente subjetivo e com uma aura divertida.

Pessoalmente, sempre fui fã das Bruxas nas histórias infantis. Há um quê de especial nas madrastas de Branca de Neve e Cinderela, em Malévola, da Bela Adormecida, nas madrastas de João e Maria, em Gothel, a Bruxa que trancafiou Rapunzel, em Úrsula, a Bruxa do Mar que queria roubar a voz de Ariel.

Sempre belas antes das eventuais transformações – e até depois delas, como Malévola, que é uma das minhas Bruxas prediletas -, essas mulheres parecem guardar uma enorme força e poder, ainda que usem tal energia para se auto-afirmar de qualquer jeito e, para tanto, se valham de subterfúgios repudiáveis. E mesmo que as Princesas sejam injustiçadas, e que as Bruxas saiam sempre vencidas, esses atributos constituem a síntese das histórias, porque sem as Bruxas elas não existiriam – sem Bruxas, aliás, nem existiriam Princesas!

Nas histórias infantis da atualidade, as Bruxas são personagens mais divertidos – como a Bruxa Onilda, de Lya Luft, que vive viajando ao redor do mundo. As Bruxas criadas pelos novos autores são aventureiras e perderam sua maldade e arrogância; além disso, já não mais se fabricam Princesas nesses contos – tudo é mais adaptado para a realidade do novo século. Só as crianças, ainda bem, não mudam com a mesma velocidade: elas ainda se encantam com Bruxas, Fadas e Princesas, e acho que precisam desse mundo antigo para suas memórias futuras.

Assim, ando às voltas com a busca de uma Bruxa de pano – uma Bruxa bonita -, para presentear Marina. Lembrei que eu tinha uma Bruxa de porcelana, antiga, que poderia fazer as vezes por enquanto, mas não a encontrei nas caixas onde guardo minhas miniaturas, e penso que devo tê-la dado para alguém. Não tem importância: hei de encontrar uma Bruxa à altura de ficar na mente da neta por muitos anos, e um dia, quem sabe, ainda vou vê-la se apaixonar ainda mais pelas Bruxas e descobrir que dentro de toda mulher mora uma Malévola – que odeia ser desprezada -, uma Rainha Malvada – que detesta não ser a mais bela -, uma Gothel, que só queria ter uma filha.

Eu sei: Bruxas não são politicamente corretas e suas atitudes não devem ser exaltadas, muito menos repetidas. Mas não se pode negar – e quando a gente cresce, nem se pode esconder – a Bruxa que nos habita e que, vez ou outra, nos inflama.

P.S.: Mais adiante, verei de resgatar textos que concluíram minha formação na Especialização em Literatura Infantil. Acreditem: o mundo dos Contos de Fadas é sempre fascinante e cheio de descobertas…

Anúncios

Um pensamento sobre “

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s